domingo, 3 de maio de 2009

QUASE

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase.
É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.
Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.
Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “Bom dia”, quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.
A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.
Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.
O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.
Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém,preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.
Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo.
De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.
Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.
(Luiz Fernando Veríssimo)

NOSSA HISTÓRIA



Algo novo está nascendo: uma nova geração de vida religiosa!

A Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) reunida em Assembléia Geral em 2001, diante dos desafios das mudanças sócio-culturais em foco e em resposta aos apelos da Vida Religiosa do Brasil, assumiu diferentes iniciativas entre as quais o Projeto “Novas Gerações e Vida Religiosa”, com o objetivo de oferecer caminhos para que a Vida Religiosa acolha as interpelações das Novas Gerações em seus dinamismos, exigências e potencialidades, num processo interativo entre as gerações em vista da refundação da própria Vida Religiosa.

Foram organizados no território nacional pela CRB, Grupos de Reflexão formados espontaneamente para refletir sobre temas da Vida Religiosa. A proposta da constituição desses Grupos de Reflexão nas Regionais, entre muitas propostas operacionais, surgiu no seminário “Novas Gerações e Vida Religiosa”, realizado em outubro de 2003. O Seminário abordou muitos e variados aspectos, porém, na síntese final, foram destacadas três temáticas que mereciam aprofundamento, pela importância que adquirem, hoje, para as novas gerações: 1) Memória e futuro da Vida Religiosa; 2) Poder e participação na Vida Consagrada; 3) Sexualidade, afetividade e consagração. Essas temáticas se apresentavam como ponto de partida para os Grupos de Reflexão nas Regionais.

Um dos momentos fortes que recolheu todo o “caminhar” desencadeado na concretização do Projeto “Novas Gerações e VR” foi o Congresso Nacional, que se realizou na cidade de São Paulo, nos dias 15 a 18 de junho de 2006 e reuniu mais de 1.100 religiosos e religiosas oriundos das diferentes regiões do Brasil. O congresso teve como principal objetivo “proporcionar espaço de participação e reflexão à Vida Religiosa Consagrada, tornando visível a sua vitalidade e o processo de diálogo geracional, em vista de uma Vida Religiosa mística e profética que responda evangelicamente aos apelos e desafios do mundo contemporâneo”.

Após o Congresso Nacional o projeto “Novas Gerações e VR” continuou com novas formas de caminhar. Hoje, os grupos de cada Regional têm características e identidades distintas. Os grupos de “Novas Gerações e VR” que compõem o Regional São Paulo, desde 2007 vêm fazendo uma caminhada personalizada à de outros grupos existentes em outras regionais pelo Brasil. Atualmente, temos quatro grupos: em São Paulo, Ribeirão Preto, Sorocaba e Bauru; que se reúnem periodicamente, para rezar, refletir, partilhar, discutir temas próprios da Vida Religiosa. Os grupos são compostos por religiosos(as) das mais variadas idades, de diversas ordens, congregações e institutos, na sua maioria jovens de votos temporários e permanentes. Nossa caminhada tem sido caracterizada de silenciosa e simples, como o movimento de uma “semente que é lançada em terra boa” e pouco a pouco vai brotando e ganhando forma. Desta figuração nasceu a frase motora das Novas Gerações de São Paulo: “Nós acreditamos na semente” – significando que a semente é a esperança que nos faz crer na concretização do sonho de uma outra Vida Religiosa possível.

Durante o ano (2008) refletimos o tema: “A identidade da Vida Consagrada no Mundo Contemporâneo”, pois queremos discernir o perfil dos consagrados e consagradas deste tempo de mudança de época e as novas formas de viver nossa consagração tendo sempre presente a memória histórica da Vida Religiosa, onde se concentra o “múnus” de nossa vocação de consagrados(as). A partir de nossos estudos e reflexões acerca deste tema, muitas foram as luzes e descobertas, entre elas a definição de nossa identidade de “Novas Gerações” do Regional São Paulo, que norteia a caminhada dos grupos em nosso Regional: “Somos consagrados(as) que sonhamos e buscamos através do processo interativo, de encontros, da aproximação e partilha de vida, reacender a chama por Jesus Cristo e, alimentados(as) pela espiritualidade, gerar um novo modo de sentir, pensar e agir na Vida Religiosa Consagrada, marcada pela qualidade de vida evangélica, ousadia profética e testemunho coerente”.

A nossa identidade revela quem somos, o que fazemos e o que queremos. Estamos cientes que as “Novas Gerações” está promovendo o renascer de uma vida religiosa consagrada ousada, criativa, solidária, fiel, mística, profética e geradora de esperança para este novo tempo histórico, no qual somos chamados(as) a viver nossa consagração religiosa. Isto se percebe, por meio da intercongregacionalidade, assinalada como um dos novos modos de ser vida religiosa na Igreja, abrindo perspectivas para o futuro e integrando, aproximando os religiosos(as) e, conseqüentemente, as congregações, que vêem nesse evento um movimento do Espírito, que “faz novas todas as coisas”.

Nos dias 28 e 29 de junho de 2008, aconteceu na cidade de Belo Horizonte(MG) o 1º Fórum Interregional das Novas Gerações da Região Sudeste do Brasil, que compreende os Estados de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo, para refletir sobre o tema: “Novas Gerações e Juventudes” e o lema: “Digam às novas gerações avancem!”, com o intuito de traçar possíveis trabalhos da vida consagrada com as diversas juventudes, dos movimentos e pastorais da Igreja e, também, das juventudes, que não estão inseridas num ambiente eclesial.

Todas essas iniciativas nos fazem perceber a certeza com que foram tocados e tocadas pelo amor e graça de Deus nossos fundadores e fundadoras, ao darem uma resposta profética, frente aos desafios e necessidades de seu tempo, plantando no coração do mundo e da Igreja o carisma de nossas congregações. Esse é o desafio que a Vida Religiosa encontra pela frente: manter acesa a chama da intuição, do vigor, da coragem e do entusiasmo presente na inspiração fundante dos nossos carismas, para reafirmarmos nossa identidade e darmos passos decisivos no processo de refundação da Vida Religiosa. Eis que as “Novas Gerações” estão presentes, para colaborar com o futuro, trazendo consigo a semente “portadora de esperança” e anunciando em voz vibrante que “algo novo está nascendo: uma nova geração de vida religiosa”.
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Artigo elaborado pela coordenação do Grupo Novas Gerações (Núcelo CRB Ribeirão Preto) com base em textos de livros do projeto “Novas Gerações e Vida Religiosa” da CRB, com adaptações feitas a partir da experiência vivenciada pelos grupos de Novas Gerações da CRB – Regional SP.

sábado, 2 de maio de 2009

BENDITO SEJAS, PAI*

Bendito sejas, Pai
pela sede que despertas em nós
pelos planos arrojados que nos inspiras.
Pela chama que és tu mesmo
crepitando em nós...

Que importa que a sede fique
em grande parte insatisfeita?
Ai dos saciados!

Que importa que os planos
fiquem mais no desejo
do que na realidade?

Quem sabe mais do que Tu
que o êxito independe de nós
e só nos pedes
o máximo de entrega
e boa vontade?

(Dom Hélder Câmara)

* Texto rezado no encontro de 18 de abril de 2009 pelo pe. Patrick com o grupo Novas Gerações.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O ROSTO DE DEUS NOS POBRES

O grupo Novas Gerações recebeu, no dia 18 de abril de 2009, a visita do padre Patrick Joseph Clarke* que, em um clima fraterno, partilhou um pouco das experiências de vida acumuladas ao longo dos mais de trinta anos em que testemunha a presença do Reino no meio dos excluídos do nosso tempo.

O rosto de Deus nos pobres, a caminhada da Teologia da Libertação em suas possibilidades e limites, o respeito e a escuta atenta às identidades formam os aspectos mais marcantes de sua partilha. Aqui procuramos resumir suas palavras, durante a manhã em que estivemos juntos em uma síntese que, embora certamente não traduza de forma literal a força do momento, resgata palavras que vão de encontro às nossas aspirações de uma Vida Religiosa mais identificada com a causa do Evangelho.

Sectarismo: ameaça aos verdadeiros processos de libertação

Ao recordar a trajetória da Teologia da Libertação pe. Patrick falou sobre os perigos do sectarismo. Ele lembrou os perigos de uma prática religiosa que em nome da libertação, a princípio, desencadeou o culto à pobreza numa interpretação estreita do ensinamento de Jesus sobre os preferidos do Reino. Lembrou que hoje estamos em uma nova fase na prática pastoral no meio dos pobres: “nenhum pobre deseja a pobreza porque a pobreza não é algo desejável é, ao contrário, uma situação da qual todos esperam sair”.
O perigo do sectarismo, segundo pe. Patrick nasce da ansiedade de soluções rápidas, mas elas não existem. Iniciativas com base em ações fundamentadas no sectarismo podem fazer o efeito contrário, e em vez de abrir processos de libertação desencadear processos de escravidão e manipulação. Enfatizou também que a fé não é ideologia e fez um convite para que aprofundássemos esse aspecto com a leitura do pensamento de Juan Luís Segundo, um dos grandes representantes da Teologia da libertação.

Identidades: prerrogativa do diálogo

A ideologia neoliberal não gosta das identidades. Lembrou pe. Patrick ao falar sobre a escuta, prerrogativa básica para que aconteçam encontros pessoais verdadeiros e potencialmente transformadores.
No modelo de relações estabelecido pelos poderes neoliberais, que regem não só a economia, mas também povoam as mentalidades, a pessoa que proclama sua identidade assume publicamente que é adepto de uma postura intolerante. O mundo pós-moderno fincou raízes na dinâmica da polarização, nele não há espaços para o diálogo, nem para a escuta, só existem duas possibilidades: concordar ou discordar. Examinando mais a fundo a questão, pe. Patrick foi enfático ao afirmar que para que haja encontro com o outro é preciso que hajam identidades diferentes bem estabelecidas. O primeiro sinal de identidade segura é poder ouvir o outro sem perder-se, isso só é possível quando há respeito à identidade do outro.

Fundamentalismo: uma forma de desespero

Neste ponto recordou a antropologia do imaginário que constata a necessidade da significação dos mitos e símbolos. Sem imaginação criadora resta-nos a loucura, o pensamento estático e completamente impossibilitado de ver e compreender novas interpretações para a vida e suas complexas interações.
Os símbolos nos levam a compreender que precisamos ser mais para ser algo, que o mundo, a vida, transcende à nossa própria capacidade de apropriação intelectual. Seu sentido mais pleno pode estar onde nossas mãos não conseguem alcançar de forma material, transitam livremente na complexidade dos símbolos. Na loucura, não existem símbolos, não existe complexidade, não existe transcendência. Neste ponto lembrou que as seitas arrebanham porque o povo está sedento e por fim nos questionou: Como está nossa acolhida? O que estamos pregando? Jesus Cristo?

Sede de Deus

A sede de Deus não é carência é dom. Pe. Patrick enfatizou que os satisfeitos já não têm mais aventura. Neste ponto fez uma espécie de analogia com a presença da Vida Religiosa no mundo. Falou sobre os afastamentos geográficos e pessoais em que se encontram as casas religiosas. Citou a experiência da Movimento de Defesa dos Favelados onde constata de perto essa realidade de ausência dos consagrados no meio dos pobres. Disse que esses são distanciamentos que nos afastam da verdadeira felicidade. Os fechamentos em túmulos de conforto furtam a Vida Religiosa do contato vital.
Esses afastamentos podem refletir uma visão maniqueísta: presume-se que o mundo é ruim, quando na verdade é o mundo com todos os seus complexos desdobramentos que nos aproximam do sentido da vida.

Desejo de infinito

Existe uma infinitude falsa e uma infinitude verdadeira. Pe. Patrick exemplificou isso ao citar a história do músico Igor Fiodorvitch Stravinsky que, diante de uma idéia de composição ficava perdido em meio à infinidade de possibilidades. O músico declarou que nessas ocasiões ia ao piano e compreendia que a sinfonia sairia das combinações da oitava musical — DO, RE, MI, LA, SI, DO — tudo que ele pudesse criar nasceria dessa base finita e ao mesmo tempo infinita pelas possibilidades que continha.

A salvação está na comunidade

Ao ser questionado sobre os desafios da Vida Consagrada hoje, pe. Patrick afirmou que: “o sonho sempre vale a pena porque o povo também está encurralado, estão onde não querem estar. Sofrem pela impossibilidade. Não podemos enaltecer a miséria. Cristo não veio para fazer revolução programada, mas uma revolução de dentro e de fora, isso não é trabalho de multidões é preciso voltar ao Evangelho e lembrar Zaqueu e o grão de mostarda. A fé só é fé quando é pequena. Para viver isso é preciso superar as contradições. O povo não tem possibilidades de manobra, conjugar isso sempre vai ser um desafio”. Para concluir essa fala citou ainda a frase da poetiza Adélia Prado que diz: ”o amor é o sofrimento decantado”.
Sobre esse aspecto sugeriu também a leitura do livro Comunidade: lugar da festa e do perdão.
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* Por mais de 30 anos, Padre Patrick tem atuado pelo direito à moradia, ao saneamento básico, luz e água, especialmente na região da Vila Prudente.Sua atuação contribuiu para a fundação e legalização do Movimento de Defesa dos Favelados (MDF), construção da creche Julio César Aguiar, fundação do Centro Cultural Vila Prudente e construção do Centro pastoral Dom Oscar Romero, em 2008.