O grupo Novas Gerações recebeu, no dia 18 de abril de 2009, a visita do padre Patrick Joseph Clarke* que, em um clima fraterno, partilhou um pouco das experiências de vida acumuladas ao longo dos mais de trinta anos em que testemunha a presença do Reino no meio dos excluídos do nosso tempo.
O rosto de Deus nos pobres, a caminhada da Teologia da Libertação em suas possibilidades e limites, o respeito e a escuta atenta às identidades formam os aspectos mais marcantes de sua partilha. Aqui procuramos resumir suas palavras, durante a manhã em que estivemos juntos em uma síntese que, embora certamente não traduza de forma literal a força do momento, resgata palavras que vão de encontro às nossas aspirações de uma Vida Religiosa mais identificada com a causa do Evangelho.
Sectarismo: ameaça aos verdadeiros processos de libertação
Ao recordar a trajetória da Teologia da Libertação pe. Patrick falou sobre os perigos do sectarismo. Ele lembrou os perigos de uma prática religiosa que em nome da libertação, a princípio, desencadeou o culto à pobreza numa interpretação estreita do ensinamento de Jesus sobre os preferidos do Reino. Lembrou que hoje estamos em uma nova fase na prática pastoral no meio dos pobres: “nenhum pobre deseja a pobreza porque a pobreza não é algo desejável é, ao contrário, uma situação da qual todos esperam sair”.
O perigo do sectarismo, segundo pe. Patrick nasce da ansiedade de soluções rápidas, mas elas não existem. Iniciativas com base em ações fundamentadas no sectarismo podem fazer o efeito contrário, e em vez de abrir processos de libertação desencadear processos de escravidão e manipulação. Enfatizou também que a fé não é ideologia e fez um convite para que aprofundássemos esse aspecto com a leitura do pensamento de Juan Luís Segundo, um dos grandes representantes da Teologia da libertação.
Identidades: prerrogativa do diálogo
A ideologia neoliberal não gosta das identidades. Lembrou pe. Patrick ao falar sobre a escuta, prerrogativa básica para que aconteçam encontros pessoais verdadeiros e potencialmente transformadores.
No modelo de relações estabelecido pelos poderes neoliberais, que regem não só a economia, mas também povoam as mentalidades, a pessoa que proclama sua identidade assume publicamente que é adepto de uma postura intolerante. O mundo pós-moderno fincou raízes na dinâmica da polarização, nele não há espaços para o diálogo, nem para a escuta, só existem duas possibilidades: concordar ou discordar. Examinando mais a fundo a questão, pe. Patrick foi enfático ao afirmar que para que haja encontro com o outro é preciso que hajam identidades diferentes bem estabelecidas. O primeiro sinal de identidade segura é poder ouvir o outro sem perder-se, isso só é possível quando há respeito à identidade do outro.
Fundamentalismo: uma forma de desespero
Neste ponto recordou a antropologia do imaginário que constata a necessidade da significação dos mitos e símbolos. Sem imaginação criadora resta-nos a loucura, o pensamento estático e completamente impossibilitado de ver e compreender novas interpretações para a vida e suas complexas interações.
Os símbolos nos levam a compreender que precisamos ser mais para ser algo, que o mundo, a vida, transcende à nossa própria capacidade de apropriação intelectual. Seu sentido mais pleno pode estar onde nossas mãos não conseguem alcançar de forma material, transitam livremente na complexidade dos símbolos. Na loucura, não existem símbolos, não existe complexidade, não existe transcendência. Neste ponto lembrou que as seitas arrebanham porque o povo está sedento e por fim nos questionou: Como está nossa acolhida? O que estamos pregando? Jesus Cristo?
Sede de Deus
A sede de Deus não é carência é dom. Pe. Patrick enfatizou que os satisfeitos já não têm mais aventura. Neste ponto fez uma espécie de analogia com a presença da Vida Religiosa no mundo. Falou sobre os afastamentos geográficos e pessoais em que se encontram as casas religiosas. Citou a experiência da Movimento de Defesa dos Favelados onde constata de perto essa realidade de ausência dos consagrados no meio dos pobres. Disse que esses são distanciamentos que nos afastam da verdadeira felicidade. Os fechamentos em túmulos de conforto furtam a Vida Religiosa do contato vital.
Esses afastamentos podem refletir uma visão maniqueísta: presume-se que o mundo é ruim, quando na verdade é o mundo com todos os seus complexos desdobramentos que nos aproximam do sentido da vida.
Desejo de infinito
Existe uma infinitude falsa e uma infinitude verdadeira. Pe. Patrick exemplificou isso ao citar a história do músico Igor Fiodorvitch Stravinsky que, diante de uma idéia de composição ficava perdido em meio à infinidade de possibilidades. O músico declarou que nessas ocasiões ia ao piano e compreendia que a sinfonia sairia das combinações da oitava musical — DO, RE, MI, LA, SI, DO — tudo que ele pudesse criar nasceria dessa base finita e ao mesmo tempo infinita pelas possibilidades que continha.
A salvação está na comunidade
Ao ser questionado sobre os desafios da Vida Consagrada hoje, pe. Patrick afirmou que: “o sonho sempre vale a pena porque o povo também está encurralado, estão onde não querem estar. Sofrem pela impossibilidade. Não podemos enaltecer a miséria. Cristo não veio para fazer revolução programada, mas uma revolução de dentro e de fora, isso não é trabalho de multidões é preciso voltar ao Evangelho e lembrar Zaqueu e o grão de mostarda. A fé só é fé quando é pequena. Para viver isso é preciso superar as contradições. O povo não tem possibilidades de manobra, conjugar isso sempre vai ser um desafio”. Para concluir essa fala citou ainda a frase da poetiza Adélia Prado que diz: ”o amor é o sofrimento decantado”.
Sobre esse aspecto sugeriu também a leitura do livro Comunidade: lugar da festa e do perdão.
O rosto de Deus nos pobres, a caminhada da Teologia da Libertação em suas possibilidades e limites, o respeito e a escuta atenta às identidades formam os aspectos mais marcantes de sua partilha. Aqui procuramos resumir suas palavras, durante a manhã em que estivemos juntos em uma síntese que, embora certamente não traduza de forma literal a força do momento, resgata palavras que vão de encontro às nossas aspirações de uma Vida Religiosa mais identificada com a causa do Evangelho.
Sectarismo: ameaça aos verdadeiros processos de libertação
Ao recordar a trajetória da Teologia da Libertação pe. Patrick falou sobre os perigos do sectarismo. Ele lembrou os perigos de uma prática religiosa que em nome da libertação, a princípio, desencadeou o culto à pobreza numa interpretação estreita do ensinamento de Jesus sobre os preferidos do Reino. Lembrou que hoje estamos em uma nova fase na prática pastoral no meio dos pobres: “nenhum pobre deseja a pobreza porque a pobreza não é algo desejável é, ao contrário, uma situação da qual todos esperam sair”.
O perigo do sectarismo, segundo pe. Patrick nasce da ansiedade de soluções rápidas, mas elas não existem. Iniciativas com base em ações fundamentadas no sectarismo podem fazer o efeito contrário, e em vez de abrir processos de libertação desencadear processos de escravidão e manipulação. Enfatizou também que a fé não é ideologia e fez um convite para que aprofundássemos esse aspecto com a leitura do pensamento de Juan Luís Segundo, um dos grandes representantes da Teologia da libertação.
Identidades: prerrogativa do diálogo
A ideologia neoliberal não gosta das identidades. Lembrou pe. Patrick ao falar sobre a escuta, prerrogativa básica para que aconteçam encontros pessoais verdadeiros e potencialmente transformadores.
No modelo de relações estabelecido pelos poderes neoliberais, que regem não só a economia, mas também povoam as mentalidades, a pessoa que proclama sua identidade assume publicamente que é adepto de uma postura intolerante. O mundo pós-moderno fincou raízes na dinâmica da polarização, nele não há espaços para o diálogo, nem para a escuta, só existem duas possibilidades: concordar ou discordar. Examinando mais a fundo a questão, pe. Patrick foi enfático ao afirmar que para que haja encontro com o outro é preciso que hajam identidades diferentes bem estabelecidas. O primeiro sinal de identidade segura é poder ouvir o outro sem perder-se, isso só é possível quando há respeito à identidade do outro.
Fundamentalismo: uma forma de desespero
Neste ponto recordou a antropologia do imaginário que constata a necessidade da significação dos mitos e símbolos. Sem imaginação criadora resta-nos a loucura, o pensamento estático e completamente impossibilitado de ver e compreender novas interpretações para a vida e suas complexas interações.
Os símbolos nos levam a compreender que precisamos ser mais para ser algo, que o mundo, a vida, transcende à nossa própria capacidade de apropriação intelectual. Seu sentido mais pleno pode estar onde nossas mãos não conseguem alcançar de forma material, transitam livremente na complexidade dos símbolos. Na loucura, não existem símbolos, não existe complexidade, não existe transcendência. Neste ponto lembrou que as seitas arrebanham porque o povo está sedento e por fim nos questionou: Como está nossa acolhida? O que estamos pregando? Jesus Cristo?
Sede de Deus
A sede de Deus não é carência é dom. Pe. Patrick enfatizou que os satisfeitos já não têm mais aventura. Neste ponto fez uma espécie de analogia com a presença da Vida Religiosa no mundo. Falou sobre os afastamentos geográficos e pessoais em que se encontram as casas religiosas. Citou a experiência da Movimento de Defesa dos Favelados onde constata de perto essa realidade de ausência dos consagrados no meio dos pobres. Disse que esses são distanciamentos que nos afastam da verdadeira felicidade. Os fechamentos em túmulos de conforto furtam a Vida Religiosa do contato vital.
Esses afastamentos podem refletir uma visão maniqueísta: presume-se que o mundo é ruim, quando na verdade é o mundo com todos os seus complexos desdobramentos que nos aproximam do sentido da vida.
Desejo de infinito
Existe uma infinitude falsa e uma infinitude verdadeira. Pe. Patrick exemplificou isso ao citar a história do músico Igor Fiodorvitch Stravinsky que, diante de uma idéia de composição ficava perdido em meio à infinidade de possibilidades. O músico declarou que nessas ocasiões ia ao piano e compreendia que a sinfonia sairia das combinações da oitava musical — DO, RE, MI, LA, SI, DO — tudo que ele pudesse criar nasceria dessa base finita e ao mesmo tempo infinita pelas possibilidades que continha.
A salvação está na comunidade
Ao ser questionado sobre os desafios da Vida Consagrada hoje, pe. Patrick afirmou que: “o sonho sempre vale a pena porque o povo também está encurralado, estão onde não querem estar. Sofrem pela impossibilidade. Não podemos enaltecer a miséria. Cristo não veio para fazer revolução programada, mas uma revolução de dentro e de fora, isso não é trabalho de multidões é preciso voltar ao Evangelho e lembrar Zaqueu e o grão de mostarda. A fé só é fé quando é pequena. Para viver isso é preciso superar as contradições. O povo não tem possibilidades de manobra, conjugar isso sempre vai ser um desafio”. Para concluir essa fala citou ainda a frase da poetiza Adélia Prado que diz: ”o amor é o sofrimento decantado”.
Sobre esse aspecto sugeriu também a leitura do livro Comunidade: lugar da festa e do perdão.
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* Por mais de 30 anos, Padre Patrick tem atuado pelo direito à moradia, ao saneamento básico, luz e água, especialmente na região da Vila Prudente.Sua atuação contribuiu para a fundação e legalização do Movimento de Defesa dos Favelados (MDF), construção da creche Julio César Aguiar, fundação do Centro Cultural Vila Prudente e construção do Centro pastoral Dom Oscar Romero, em 2008.
Tentei fazer o resumo de tudo que ouvimos, mas todos que estiveram presentes podem dar sua colaboração aqui nos comentários ou alterando o próprio texto onde for necessário, ok!?
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