Trouxemos muitas inquietações e muitos questionamentos. Como viver os votos num mundo pós-moderno e globalizado? Numa sociedade cada vez mais marcada pelo consumismo, pelo hedonismo e pela cultura do descartável como transmitir nossa experiência do Eterno? Como fazer da vida fraterna em comunidade um sinal profético de partilha e de doação diante da cultura individualista? É possível ser presença de compaixão e empatia junto aos marginalizados e sofredores do mundo? Quais caminhos seguir para sermos uma vida religiosa, testemunha da alegria?
Durante as reflexões e os debates percebemos que não vivemos “numa época de mudanças, mas numa mudança de época”, a tal ponto que nos desafiam a rever e aprofundar os conceitos e valores essenciais da VC. Mas até que ponto estas mudanças contradizem nossos ideais? A revolução tecnológica é uma contradição tão grande aos valores do Reino? É, de fato, uma época de revolução de conceitos e isto é inegável.
Assim, nos sentíamos como os discípulos peregrinos no caminho de Emaús: com grandes problemáticas e pouco ânimo. E foi desta forma que Ele veio ao nosso encontro, melhor, foi nesta circunstância que o reconhecemos. E da mesma forma como Deus faz nascer a luminosa aurora do meio das espesas trevas, assim Ele – o Senhor da vida, eterno e altíssimo – fez-se tempo e espaço, imprimindo em nós sua marca de eternidade. Se fazendo nosso companheiro de jornada, conduziu-nos, não a veredas totalmente planas, mas iluminando as tortuosas.
Sua presença nos convocou a ser pedras de toque nas regiões de fronteira, especialmente entre aqueles mais esquecidos. Se a VC deve ser sinal radiante do reino, então a VRJ deve ser a própria expressão paradoxal da opção radical pelo Senhor morto e ressuscitado neste mundo secularizado e ferido. A VRC deve andar nas beiradas, nas fronteiras, na periferia, estar com os que não estão. Amando a humanidade inteira, sendo presença. E ao mesmo tempo gritando – sempre que necessário – contra toda forma de idolatria, de ganância, de dominação, de opressão, de massificação.
Queremos assumir nosso protagonismo jovem, assumir nosso papel, ainda que tenhamos que trazer conosco muitas outras pessoas fazendo-as perceber que é necessário que cada um assuma o seu papel.
Construindo e arquitetando caminhos. Transformando metas em realidade, sentimentos em canções, luz em liberdade queremos responder ao mundo sendo sinal trinitário, para estar com as pessoas em suas alegrias, dores e acontecimentos, abrindo nossas casas, sendo locais de encontro, de fraternura, para que as pessoas sintam o suave perfume da VC. Contra a solidão e o individualismo queremos ser sinal de fraternidade vivendo em comunhão na Igreja (e por que não também fora dela?), fazendo pontes entre as Igrejas. Pois se as religiosas e os religiosos não forem pontes no mundo de hoje, a VRC será um riacho sem passagem, uma massa amorfa e estagnada, sal que não dá sabor. Há muitos e muitas que precisam de um testemunho de amor, de serviço desinteressado e alegre, disponível e acolhedor, mais pronto a escutar e valorizar do que apenas mecanicamente dar assistências. Portanto, queremos ser sinal de amor livre e gratuito, delicado e terno, tecendo relações que edifiquem pessoas, devolvendo e restituindo a dignidade roubada e dilacerada de tantos e tantas que não tem voz e são sufocadas. Queremos ser, fundamentalmente, consagrados a serviço da misericórdia, da compaixão. Não qualquer compaixão, mas aquela materna e paterna, com afago e carinho.
Nenhum destes nossos anseios, absolutamnete, tem intenção de prender ou aprisionar Jesus, muito pelo contrário, queremos deixá-lo solto para que possa “voar para todos os lados”. E nós, a exemplo de Teresinha de Lisieux, desejamos alçar vôo por mares e terras desconhecidos para nós, mas sonhadas e planejadas pelo Senhor da messe.
Com alegria! Pois, basta de rostos tristes na VC. Pertencer a Jesus de Nazaré, ser seu colaborador/sua colaboradora de missão, co-herdeiros/co-herdeiras da vida plena: tudo isso é graça e é dom, o maior que poderíamos receber. E tudo isto nos impulsiona à alegria, a sermos testemunhas do grande gozo e do júbilo que é pertencer Àquele que faz novas todas as coisas e que nos dá o vigor da novidade a partir da delicadeza que desperta em nosso interior.
Vamos descer, agora, o Tabor das esperanças renovadas, dos ideais reafirmados, do rejuvenecimento da nossa juventude consagrada e da nossa jovial consagração. Partimos com sementes nas mãos e com o coração abrasado, certos de que nós – as NGs – irradiamos VIDA em toda a sua complexidade e diversidade e ESPERANÇA através da dinamicidade e da potência criadora e geradora que é o Espirito do Pai e do Filho.
Convictos de nossa missão, contamos com o auxílio, o exemplo e a proteção de Maria, a Senhora Aparecida, Mãe negra da libertação e da contemplação. Ela que conduziu dentro de si e gerou a Vida e a Esperança, Aquela que Deus chamou para ser Mãe da nova geração e que com seus passos rápidos e sua voz profética e apaixonada engrandeceu o Deus de justiça e de misericórdia. Que assim como ela soube silenciar diante daquele pequeno menino-Deus e contemplá-lo com a inteireza e a abertura de sua alma fecunda, que da mesma forma toda a juventude consagrada saiba ser disponível a construir com sua vida e alegria o Reino sonhado pelo Mestre, assumindo com ousadia e fé seu protagonismo.
VIDA RELIGIOSA JOVEM
Solenidade de Nossa Senhora Aparecida, São Paulo 2009
Solenidade de Nossa Senhora Aparecida, São Paulo 2009
Nenhum comentário:
Postar um comentário